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ENGATINHANDO


Nosso terceiro encontro remoto síncrono foi marcado pela primeira aparição da figura do clown caracterizado, dando a ela novos contornos e matizes. Enquanto coletivo, tivemos nosso nascimento com direito ao “amadrinhamento” de Ximia Boia, palhaça da Lúcia. Para alguns, certamente, não foi a primeira vez que seus palhaços apareceram caracterizados, como o caso de Lúcia e de Mateus que já haviam sido iniciados por Wuo.

Ana começou olhando as vestimentas dos alunos e reforçando algumas orientações de como as práticas aconteceriam naquele dia e, logo em seguida, passou a condução a mim. Meu objetivo era trabalhar com conceito desenvolvido por Ana chamado (Des)forma - que, de maneira simplificada, sugere o rompimento com formas pré-estabelecidas. Depois de trabalhar esse ideal, eu aplicaria um jogo desenvolvido em minha pesquisa de mestrado e adaptado para os meios digitais.

Na parte inicial da condução, eles deveriam alinhar o corpo sentado em suas cadeiras e exercitar a autopercepção: perceber sua respiração, pulsação, disposição corporal, peso de partes do corpo e possíveis tensões. Depois, sugeri alguns exercícios para aquecimento da voz, como vibração de língua ou lábios e soltar a respiração em “S”, controlando a saída de ar. A recomendação era de não tensionar a região do colo e do pescoço. 

Posteriormente, deveriam bocejar “para dentro” e “para fora”, buscando um relaxamento ainda maior e exercitar a região do palato de maneira indireta, devido aos movimentos necessários para a passagem de ar. Junto ao bocejo, recomendei que cada um, pouco a pouco, começasse a mover uma pequena parte do corpo, qualquer que fosse e que deixasse esse movimento crescer, envolvendo novas partes até o total engajamento em uma movimentação ininterrupta.


Pedi para que tivessem em mente a noção da (des)forma, que rompessem com a formalidade da disposição de seus corpos. Toda vez que encontrassem repetição de padrão em seus movimentos deveriam romper. Eles deveriam alternar a velocidade, a amplitude e a qualidade de suas movimentações. Depois, recomendei que emitissem sons sem racionalizar. A verbalização, a composição de palavras ou frases lógicas estava proibida. A mesma noção de (des)forma empregada no corpo, também deveria ser empregada nas emissões sonoras.

Era muito interessante ver a entrega dos colegas explorando tantas formas e (des)formas em suas relações com o tempo e o espaço: movimentos enormes, pequenos, rápidos, lentos, circulares, pontuais; emissões vocais graves, médias, agudas, contínuas, destacadas. A (des)forma estava presente ali, no exercício contínuo de rompimento da lógica convencional, do ser cotidiano formatado e civilizado. 

Ainda no embalo desses corpos em estado investigativo e extracotidiano, sugeri que dormissem. Estavam sonhando com algo bom, que ficava cada vez melhor. Cada estímulo condutor parecia guiar-lhes mais intensamente à situação proposta. Esse “dormir” deveria fazer-se notado, presente, dilatado, traduzido em movimento corpóreovocal. Posteriormente, o sono se transformaria, pouco a pouco, em seus piores pesadelos até acordarem.

Antes de despertarem de seus sonhos, informei-lhes quem seriam seus pares e como funcionaria o próximo passo do exercício: comunicar-se com o corpovoz em desforma planejando táticas de caça e colheita. Ao notarem a presença de outro grupo, a orientação era de que elaborassem um grito de guerra para afastarem o coletivo opositor e assim o fizeram. Entretanto, no meio da disputa e exibição de gritos de guerra alertei-lhes que havia chegado um guarda florestal: todos deveriam se esconder.

Ana prontamente assumiu o lugar de um guarda sério, preservador da ordem daquele espaço. Nosso exercício foi encerrado quando o fiscal partiu e eles pegaram novamente no sono - dessa vez sonhando com imagens engraçadas. Era hora de partir para o próximo exercício.

A instrução do jogo consistia na execução de ações correspondentes a cada número. Pedi para que cada um fizesse uma dancinha e depois perguntei qual delas havia chamado mais a atenção do coletivo. Escolheram a realizada por Mateus - uma dancinha de pescoço. Depois, pedi para que cada um, sem pensar, dissesse uma frase. A escolhida dessa vez foi a de Lúcia: “ai, que vontade de arrotar”. 

Quando eu dissesse 1 eles deveriam fazer a dancinha do pescoço; 2, bater duas palmas; 3, bater os pés no chão por três vezes; 4, dizer a frase “ai, que vontade de arrotar”. A frase deveria ser dito com a intenção que eu dissesse “4”. Se eu dissesse de forma triste, eles deveriam dizer a frase de forma igualmente triste. Se eu dissesse cantando, eles deveriam dizer cantando. Se eu dissesse “4 tomando sopa quente”, eles deveriam dizer a frase como se estivessem tomando uma sopa quente. 

Além desses 4 comandos haviam outros 5 que diziam respeito à direção em que eles deveriam “olhar com o nariz”: esquerda, direita, cima, baixo e frente. No meio de tantos comandos eu pediria coisas inusitadas e selecionaria uma dupla ou trio, para exercitarem seus estados de ridículo e a relação com o espectador (próprios colegas). Os pedidos inusitados do dia foram “dança da chuva”, “movimento de super heroi” e ”cozinhar como um Masterchef”. 

A atividade despertou o riso em todos e assim “passei a bola” para Ana, novamente, que nos conduziu novamente à uma viagem em nosso imaginário - desta vez tendo em mente uma foto da infância que escolhemos previamente. Estávamos no topo da montanha e entraríamos novamente no castelo, passando novamente pelo ritual da busca pela pérola vermelha. Ao mesmo tempo deveríamos, de olhos fechados, vestir a roupa que escolhemos. Segundo a doutora aquela seria nossa “troca de pele”.

Depois, ainda de olhos fechados, deveríamos colocar nosso nariz e ao som de músicas escolhidas por Ana Wuo e de seus comandos, entraríamos em um portal: era nossa travessia para o mundo do palhaço. Meu corpo entrou em estado de euforia, de adrenalina, de agitação. Aquela criança da foto, jogada no quintal de casa, montando lego emanava bolhas efervescentes por todo meu corpo. A mesma criança que jogava água e sabão no piso para escorregar e ria de si, do outro, de tudo. A criança que não sabia de tanta coisa e era feliz sem saber ainda era, ainda sou eu. O menino ansioso por novas aventuras estava ali, já perdendo a paciência e querendo adentrar logo, aos pulos, atravessando o portal.


Eu já tive experiências cômicas, experiências clownescas, mas nunca havia passado por um processo iniciático formal como este. Clowndson é meu nome de palhaço (em homenagem à minha mãe - Cláudia - e ao meu pai - Edson -. Entretanto, neste dia ganhei um sobrenome completo dado por Wuo, minha mãe Clown. Clowndson Testônio da Testosterona: uma perfeita homenagem à minha mãe, ao meu pai, à minha testa saliente e também ao meu excesso de virilidade e testosterona (essa parte última parte é mentira).

Assim como a mim, Ana iniciara outros palhaços, meus novos irmãos: Mateus (Magrilindo), Antônio (Champuschio), Mandy (Chicabell ComdoisL), Júlia (Jujubochechas Kicharme) e Gracce (Mimim Duim), todos amadrinhados por Lúcia (Ximia Bóia) e filhos de Wuo (Caixinha). Ambos apresentamos nossos nomes e conversamos um pouco com Ana até que nosso encontro se findasse.

Encerramos o dia falando uma palavra que representasse esse momento:


                                                                                      Ximia - Emoção 

                                                   Antônio - Respiração

               Mandy - Homenagem

                                                 Gabriel - Nasci

               Mateus - Bebê

                                                 Júlia - Kicharme

                                                                                    Hudson - Transpiração