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Era pra ser só mais uma despedida

Demos início à aula com práticas já realizadas anteriormente como o aquecimento - viagem à montanha -, o exercício do olhar, a caminhada cômica e entradas e saídas. Posteriormente, vieram novas propostas como explorar diferentes formas de sentar, uma competição das danças mais estranhas e “Eu sou o rei”. Na competição, Ana separou-nos em duplas e, ao som de uma música escolhida por ela, tivemos que buscar o grotesco e o exagero em nossos movimentos. É impressionante como o movimento revela, nossa figura revela e tudo parece tão rico e singular.

No exercício “Eu sou o rei”, também agrupados em duplas, deveríamos falar a frase “eu sou o rei” o mais rápido possível ao som da campainha de Ana. O integrante mais ágil seria o mandão da vez e poderia pedir coisas inusitadas à sua dupla. Essa prática acaba revelando inclinações e escolhas no jogo entre dominador e dominado - Branco e Augusto. Alguns ficavam totalmente perdidos na hora de dar ordens, outros pareciam mais confortáveis. O mesmo vale para o lugar de receber ordens - alguns contrariados, outros prontos para atender às demandas. Cada um, à sua maneira, jogava e imprimia toda sua subjetividade. 

Por fim, deveríamos apresentar nossos nomes de palhaço e dizer três coisas que gostávamos mais - e é claro que nem todas essas figuras cômicas estavam interessadas em obedecer as regras. Era engraçado ver alguns perdidos, contando pra ver se haviam chegado a três, enquanto outros saíam falando sem qualquer contenção. Deveríamos ficar atentos e anotar, pois, posteriormente criaríamos uma cena de apresentação dos colegas - com direito à trilha sonora e quaisquer outros elementos que nossa imaginação quisesse.

O que era pra ser só mais uma despedida acabou se tornando um encontro de promessas. A aula de encerramento, na verdade representou uma porta aberta para um canal no youtube, onde publicaremos vídeos individuais e coletivos, exercitando a palhaçada. Nos minutos finais da aula conversamos e cada um pôde expressar sua percepção sobre os encontros e sobre as práticas via remota. Deixo abaixo alguns depoimentos dos integrantes da turma:





“Acredito que a disciplina seja extremamente transformadora, agregando muito tanto pro próprio clown, quanto pra vida pessoal, quanto para as outras formas de atuação. Fizemos tudo que foi possível remotamente e nos divertimos bastante.” 

Gabriel (Mimim Duim)


“A disciplina pra mim representa a ruptura para um universo constantemente reformulado, reinventado. É um lugar de experimentação do ser bobo, ser torto, ser diferente, ser único. Mas ser em comunhão. Ser pro outro, pelo outro e também ser outro. Ser um outro ser não submetido pelas expectativas alheias. Liberdade! :)” 

Hudson (Testônio da Testosterona)


“Noite feliz de segunda. Reunião de amigos (e novos amigos) abertos para o jogo. Aprendizado, aceitação das próprias diferenças. Desafio para cabeça cabeçuda (que muito pondera e procura agir com cautela). Encontro com a simplicidade, a beleza de ser um humano aprendiz de clown.”

Mateus (Magrilindo)


“Estava muito ansiosa pela disciplina nos moldes presenciais e quando vi que teria em formato remoto, senti um mix de felicidade com dúvida de que daria certo. E deu! Para mim foi uma honra poder nascer em clown e quero muito poder continuar conhecendo e explorando esse universo.” 

Mandy (Chicabell ComdoisL)


“Fiquei muito em dúvida de como seria essa disciplina no modo remoto, mas, como estava muito ansioso pra fazer, resolvi experimentar. E realmente acabou dando certo! Conseguimos aprender algumas noções do palhaço e desenvolver em nós mesmos as fisicalidades e olhares do clown. Apesar de haver limitações quando estamos fazendo uma aula prática de frente à uma câmera e no nosso quarto, foi bastante proveitoso dividir esses momentos de nascimento do nosso palhaço com toda a turma.” 

Antônio (Xampúsquio)

Sempre tive muito interesse em saber como seria fazer essa disciplina, pois ao mesmo tempo também sentia muita insegurança em relação ao nascimento do meu clown (e até mesmo no começo da disciplina ficava pensando se teria a chance do nascimento não acontecer). Foi uma disciplina repleta de desafios, muitos deles devido à tela nos separando, mas a maioria pessoais, como a superação da insegurança, conhecimento próprio e o maior de todos que foi o de deixar de pensar tanto com a cabeça e passar a pensar mais com o coração. Foi uma experiência de conexão com o outro e comigo mesma que abriu portas para uma jornada de buscas interiores e exteriores nesse mundo tão leve que é o clown.” 

Lis (Abrabinha Pintosa)


Boa noite!

Gostaria de estar inspirada para escrever sobre os encontros de segunda feira.

“No início fiquei incrédula, pois como fazer iniciação de forma remota? Aos poucos fui me lançando ao trabalho generoso de um aprender infinito e fui relaxando. Descobrindo outras possibilidades em ser Ximia Bóia, remotamente! Esses encontros além de dar suporte, energia, alegria, leveza e força para o trabalho que desenvolvo na UFSM, encantaram me mais e mais.Amei conhecer gente tão bonita, gente de outras gentes, de outros lugares desse nosso Brasil! Gratidão eterna a minha mãe-mestra-clown Ana Wuo pela oportunidade de aprender um pouco mais contigo e por me transformar em madrinha-clown desses lindos.

Aproveito para desculpar minhas ausências nesses últimos dias. Desejo que um dia o encontro presencial seja possível. Um ótimo final de ano para todos nós, com muita palhaçaria! Gratidão por tudo 😍😍”

Lúcia (Ximia Bóia)


Uma quase e temporária despedida



Iniciamos o penúltimo encontro da disciplina com o aquecimento já descrito em publicações anteriores: atores ampliando a autopercepção e sendo guiados pela viagem às montanhas, passando pelo riacho e adentrando o castelo em busca do nariz vermelho. Ana fez o ritual de passagem do “mundo dos humanos” para o “mundo dos palhaços” e alertou a todos para sempre se lembrarem de sua voz, de sua condução, antes de utilizarem as máscaras (narizes vermelhos).

O exercício inicial consistia em observar a tudo e a todos, como o ambiente em que estavam e detalhes que normalmente não prestam atenção. Posteriormente Ana pediu que cada Clown se apresentasse e sugeriu que exagerassem nos gestos e na voz, favorecendo o desenvolvimento de um bordão de apresentação. Cada um ali tinha uma maneira única de se expressar: Mandy mostrava dois dedos quando apresentava “Chicabell ComdoisL’s”, Júlia acariciava as sobrancelhas quando dizia “Jujuboxexas Kixarme” e Antônio tossia antes de apresentar-se “Xampúsquio” - apenas para citar alguns exemplos. 

A próxima atividade foi a de imaginar um pincel em diferentes partes do corpo e escrever/pintar seus nomes. Não sei se os participantes tem consciência, mas quando o clown “chega”, com estado e caracterização, tudo parece automaticamente cômico aos olhos de quem vê: o simples exercício de escrever seus nomes com diferentes partes do corpo revelava matizes de expressividade cômica muito interessantes.

Logo em seguida, os alunos experimentaram com mais afinco suas caminhadas cômicas e exercitaram a performance de suas emoções como alegria, tristeza, vergonha, raiva. Prosseguindo com a proposta, Ana recomendou exercitarem essas emoções entrando e saindo de cena: entrando feliz e saindo triste ou entrando com raiva e saindo com tom de sedução, por exemplo. 

O exercício ganhou novas proporções quando ao som de uma música animada, Wuo propôs aos alunos realizarem a “dança das emoções”, exigindo que eles explorassem essas possibilidades. Na sequência, ela elencou os alunos em duplas e estes deveriam comunicar-se sem a utilização do verbo (em português). Cada um, com uma forma única de utilização da fala, deveria estabelecer uma comunicação com sua dupla explorando essas emoções anteriormente citadas. Era hilário e inusitado presenciar suas performances. 

Depois, Ana propôs que todos criassem seus eletrodomésticos com alguma inovação tecnológica, na verdade os alunos seriam esses equipamentos: Magrilindo foi o primeiro: uma batedeira que toca música; Logo depois, Xampúsquio: um liquidificador à manivela, Jujuboxexas: máquina de água que faz milk shake de água; Mimim Duim: Lava-pratos com língua (e seca com o sovaco), Chicabell: Liquidifica(dor) que consola e aconselha; Abrabinha Pintosa: Espremedor que canta “Laranjas e bananas” da Xuxa.



O próximo passo era criar uma cena de como era o café da manhã deles utilizando o eletrodoméstico. O mais engraçado era que os palhaços se mostraram sujeito e objeto de sua própria ação. Eles eram os usuários dos eletrodomésticos que eram a si próprios. Todos mostraram uma rotina matinal cômica que tiveram apenas 5 minutos para desenvolver.

Wuo finalizou a sequência de exercícios com uma dublagem que também revelou novos matizes da comicidade: alguns replicavam a parte instrumental da música, outros se metiam na performance do colega e fazia parte do coro, alguns dançavam, outros exageravam nas caras e bocas. 


Lista das músicas utilizadas:

- Xampúsquio (Antônio): Somebody to Love

- Jujuboxexas Kixarme (Júlia): Reza A Lenda - Dnaipes

- Abrabinha Pintosa (Lis): Don’t Cha - Pussycat Dolls

-Mimim Duim (Gracce): Wilkommen - Cabaret

- Chicabell ComdoisL (Amanda): Hot n cold- Katy Perry

-Magrilindo (Mateus): Isso quer dizer que você gamou


Encerramos o encontro mais uma vez deixando palavras latentes que expressassem o encontro do dia. 


Gracce: Leveza

Juju: Evolução

Antônio: Cansado

Mandy: Orgânico

Ana: Encantamento

Lis: Desafio

Mateus: Sabonete

Hudson: amor


Mais melão do que cólico



Iniciamos o encontro e todos os participantes já estavam devidamente caracterizados. O aquecimento deu largada com uma pergunta: “Vocês já repararam como é a pisada de vocês de acordo com o calçado que vocês usam? Se um lado gasta mais…” Ana alertou para a importância da percepção sobre a pisada de cada um e essa pergunta disparou novamente a viagem de volta para a montanha. 

De olhos fechados, todos deveriam ter em mente a imagem da tela branca que depois viria a se tornar o caminho da floresta. Ana cantava toda a descrição: pelo caminho um peixinho e uma borboleta. Batendo as asas, o inseto conduziu todos ao castelo onde se concentra a pérola luminosa vermelha. 

“Sente uma coceirinha no umbigo e uma vontade de rir… uma vontade de rir de você mesmo”, orientava Wuo. Aos poucos foi possível ver cada um sorrindo de maneira mais ou menos sutil. E o riso deveria passear por diferentes partes do corpo: coluna, pés, joelhos, olhos.

O próximo passo seria tentar levantar, buscando diferentes pontos de apoio e equilíbrio. Posteriormente, investigariam diferentes formas de andar e assim o fizeram. Mandy saltitava rapidamente pelo cômodo, Lis de deslocava movimentando os cotovelos em demasia, Mateus caminhava de maneira inusitada quase sem sair do seu eixo, Julia caminhava com passos curtos trazendo a referência de Chaplin ao meu imaginário, Gabriel travava os quadris e os cotovelos como se abotoasse um paletó e maneira pomposa, Antônio parecia patinar a passos largos, Lucia balançava o tronco, fazendo com que suas “chuquinhas” no cabelo ricochetessem no ar. Aos comandos de Ana, todos iam experimentando novas características em suas caminhadas. 

Ana pediu para que cada um mostrasse, dos tipos de caminhada investigada, quais haviam gostado mais. Assim, eles compartilharam com todos, sua caminhada escolhida. Posteriormente, Ana pediu para que todos nomeassem suas “matrizes”, suas caminhadas. 

Mandy - Reboladinha; Gabriel Gracce - Península; Mateus - Walking on Sunshine; Júlia - Quadril muito doido; Antônio - Não pode pisar nas listras brancas que estão em zigue zague; Ximia - Casita Feliz; Lisandra - Cambalisa.



Depois Ana encarregou-se do nascimento clownesco de Lis -repetindo o ritual da semana passada, retomando o caminho da montanha e o encontro com a pessoa especial que há muito tempo não se vê. O batismo ocorreu depois da passagem pelo portal e do padrinho Magrilindo e a mãe Caixinha cantando “Ciranda, cirandinha” para recebê-la. 

Recebemos nossa irmã caçula - Pintosa - com muita alegria. Lis reforçou não ter gostado muito do seu nome. Perguntada se gostaria de ganhar um segundo nome, ela respondeu que sim, expressando felicidade. A Brabinha Pintosa : esse foi o nome a que deixou satisfeita. 

Outra grata surpresa foi a presença de Rômulo Santana Osthues - Ator, Palhaço e Pesquisador - que foi recebido com entusiasmo e aplausos. Todos os palhaços se apresentaram e logo em seguida Rômulo contou-nos sobre sua experiência artística como clown. Uma das partes que mais me marcou foi quando ele disse que seu clown - o  melãocólico - começou a apresentar-se de uma maneira mais melancólica, menos simpática e que isso foi mudando no decorrer de sua trajetória. Hoje ele se vê mais “melão” do que “cólico”.

Após relatar um pouco do seu percurso, mostrou-nos imagens e vídeos disponíveis em plataformas como facebook, instagram e até mesmo a própria webpage dele “O quintal de fulana e melão”


Engatinhando


Nosso terceiro encontro remoto síncrono foi marcado pela primeira aparição da figura do clown caracterizado, dando a ela novos contornos e matizes. Enquanto coletivo, tivemos nosso nascimento com direito ao “amadrinhamento” de Ximia Boia, palhaça da Lúcia. Para alguns, certamente, não foi a primeira vez que seus palhaços apareceram caracterizados, como o caso de Lúcia e de Mateus que já haviam sido iniciados por Wuo.

Ana começou olhando as vestimentas dos alunos e reforçando algumas orientações de como as práticas aconteceriam naquele dia e, logo em seguida, passou a condução a mim. Meu objetivo era trabalhar com conceito desenvolvido por Ana chamado (Des)forma - que, de maneira simplificada, sugere o rompimento com formas pré-estabelecidas. Depois de trabalhar esse ideal, eu aplicaria um jogo desenvolvido em minha pesquisa de mestrado e adaptado para os meios digitais.

Na parte inicial da condução, eles deveriam alinhar o corpo sentado em suas cadeiras e exercitar a autopercepção: perceber sua respiração, pulsação, disposição corporal, peso de partes do corpo e possíveis tensões. Depois, sugeri alguns exercícios para aquecimento da voz, como vibração de língua ou lábios e soltar a respiração em “S”, controlando a saída de ar. A recomendação era de não tensionar a região do colo e do pescoço. 

Posteriormente, deveriam bocejar “para dentro” e “para fora”, buscando um relaxamento ainda maior e exercitar a região do palato de maneira indireta, devido aos movimentos necessários para a passagem de ar. Junto ao bocejo, recomendei que cada um, pouco a pouco, começasse a mover uma pequena parte do corpo, qualquer que fosse e que deixasse esse movimento crescer, envolvendo novas partes até o total engajamento em uma movimentação ininterrupta.


Pedi para que tivessem em mente a noção da (des)forma, que rompessem com a formalidade da disposição de seus corpos. Toda vez que encontrassem repetição de padrão em seus movimentos deveriam romper. Eles deveriam alternar a velocidade, a amplitude e a qualidade de suas movimentações. Depois, recomendei que emitissem sons sem racionalizar. A verbalização, a composição de palavras ou frases lógicas estava proibida. A mesma noção de (des)forma empregada no corpo, também deveria ser empregada nas emissões sonoras.

Era muito interessante ver a entrega dos colegas explorando tantas formas e (des)formas em suas relações com o tempo e o espaço: movimentos enormes, pequenos, rápidos, lentos, circulares, pontuais; emissões vocais graves, médias, agudas, contínuas, destacadas. A (des)forma estava presente ali, no exercício contínuo de rompimento da lógica convencional, do ser cotidiano formatado e civilizado. 

Ainda no embalo desses corpos em estado investigativo e extracotidiano, sugeri que dormissem. Estavam sonhando com algo bom, que ficava cada vez melhor. Cada estímulo condutor parecia guiar-lhes mais intensamente à situação proposta. Esse “dormir” deveria fazer-se notado, presente, dilatado, traduzido em movimento corpóreovocal. Posteriormente, o sono se transformaria, pouco a pouco, em seus piores pesadelos até acordarem.

Antes de despertarem de seus sonhos, informei-lhes quem seriam seus pares e como funcionaria o próximo passo do exercício: comunicar-se com o corpovoz em desforma planejando táticas de caça e colheita. Ao notarem a presença de outro grupo, a orientação era de que elaborassem um grito de guerra para afastarem o coletivo opositor e assim o fizeram. Entretanto, no meio da disputa e exibição de gritos de guerra alertei-lhes que havia chegado um guarda florestal: todos deveriam se esconder.

Ana prontamente assumiu o lugar de um guarda sério, preservador da ordem daquele espaço. Nosso exercício foi encerrado quando o fiscal partiu e eles pegaram novamente no sono - dessa vez sonhando com imagens engraçadas. Era hora de partir para o próximo exercício.

A instrução do jogo consistia na execução de ações correspondentes a cada número. Pedi para que cada um fizesse uma dancinha e depois perguntei qual delas havia chamado mais a atenção do coletivo. Escolheram a realizada por Mateus - uma dancinha de pescoço. Depois, pedi para que cada um, sem pensar, dissesse uma frase. A escolhida dessa vez foi a de Lúcia: “ai, que vontade de arrotar”. 

Quando eu dissesse 1 eles deveriam fazer a dancinha do pescoço; 2, bater duas palmas; 3, bater os pés no chão por três vezes; 4, dizer a frase “ai, que vontade de arrotar”. A frase deveria ser dito com a intenção que eu dissesse “4”. Se eu dissesse de forma triste, eles deveriam dizer a frase de forma igualmente triste. Se eu dissesse cantando, eles deveriam dizer cantando. Se eu dissesse “4 tomando sopa quente”, eles deveriam dizer a frase como se estivessem tomando uma sopa quente. 

Além desses 4 comandos haviam outros 5 que diziam respeito à direção em que eles deveriam “olhar com o nariz”: esquerda, direita, cima, baixo e frente. No meio de tantos comandos eu pediria coisas inusitadas e selecionaria uma dupla ou trio, para exercitarem seus estados de ridículo e a relação com o espectador (próprios colegas). Os pedidos inusitados do dia foram “dança da chuva”, “movimento de super heroi” e ”cozinhar como um Masterchef”. 

A atividade despertou o riso em todos e assim “passei a bola” para Ana, novamente, que nos conduziu novamente à uma viagem em nosso imaginário - desta vez tendo em mente uma foto da infância que escolhemos previamente. Estávamos no topo da montanha e entraríamos novamente no castelo, passando novamente pelo ritual da busca pela pérola vermelha. Ao mesmo tempo deveríamos, de olhos fechados, vestir a roupa que escolhemos. Segundo a doutora aquela seria nossa “troca de pele”.

Depois, ainda de olhos fechados, deveríamos colocar nosso nariz e ao som de músicas escolhidas por Ana Wuo e de seus comandos, entraríamos em um portal: era nossa travessia para o mundo do palhaço. Meu corpo entrou em estado de euforia, de adrenalina, de agitação. Aquela criança da foto, jogada no quintal de casa, montando lego emanava bolhas efervescentes por todo meu corpo. A mesma criança que jogava água e sabão no piso para escorregar e ria de si, do outro, de tudo. A criança que não sabia de tanta coisa e era feliz sem saber ainda era, ainda sou eu. O menino ansioso por novas aventuras estava ali, já perdendo a paciência e querendo adentrar logo, aos pulos, atravessando o portal.


Eu já tive experiências cômicas, experiências clownescas, mas nunca havia passado por um processo iniciático formal como este. Clowndson é meu nome de palhaço (em homenagem à minha mãe - Cláudia - e ao meu pai - Edson -. Entretanto, neste dia ganhei um sobrenome completo dado por Wuo, minha mãe Clown. Clowndson Testônio da Testosterona: uma perfeita homenagem aos meus progenitores, à minha testa saliente e também ao meu excesso de virilidade e testosterona (essa parte última parte é mentira).

Assim como a mim, Ana iniciara outros palhaços, meus novos irmãos: Mateus (Magrilindo), Antônio (Champuschio), Mandy (Chicabell ComdoisL), Júlia (Jujubochechas Kicharme) e Gracce (Mimim Duim), todos amadrinhados por Lúcia (Ximia Bóia) e filhos de Wuo (Caixinha). Ambos apresentamos nossos nomes e conversamos um pouco com Ana até que nosso encontro se findasse.

Encerramos o dia falando uma palavra que representasse esse momento:


                                                                                      Ximia - Emoção 

                                                   Antônio - Respiração

               Mandy - Homenagem

                                                 Gabriel - Nasci

               Mateus - Bebê

                                                 Júlia - Kicharme

                                                                                    Hudson - Transpiração



Profissão do Futuro - Palhaço de Hospital


Ana Wuo conduziu-nos a uma nova viagem rumo à montanha. Iniciaríamos a noite com um aquecimento - chamado de meditação ativa pela doutora. Caminhamos por uma trilha cujo trajeto era atravessado por um rio de águas cristalinas e purificadoras.  A fluidez do líquido possui função de limpeza em seus múltiplos sentidos. Ali na água havia um peixinho querendo brincar. Ele mordiscava nossos pés, chamando nossa atenção. Em minha experiência particular a comicidade iniciara, pois a ingenuidade e a pureza impregnadas na sonoridade da voz de Ana me despertaram risos.

Posteriormente, passaríamos por uma caverna. Naquele local nosso corpo passaria por um processo de (des)forma. Minha abertura à condução de Ana fez com que eu me conectasse às suas palavras de maneira intensa. Meu corpo parecia responder sozinho aos seus comandos. O som metálico, que ela emitia de tempo em tempo, exercia magnetismo sobre mim. Minhas articulações pareciam se desmontar, encontrando oposição de forças. Meu pescoço parecia ter-se desprendido, pendendo para baixo com a ajuda do peso da cabeça, enquanto meus braços se dirigiam para o lado oposto ao do quadril.

Após atravessar a caverna, deveríamos escalar uma montanha rochosa. Ana descrevia nosso trajeto: agarramos pedras em busca da chegada ao topo. Não estávamos sozinhos. Subíamos ao lado de uma pessoa muito especial. Alguém que não víamos há muito tempo. De súbito, recordei-me de Gleice, uma amiga de infância que eu não encontrava há muitos anos. As lembranças mais fortes eram nossas brincadeiras no quintal, em um canteiro de terra que tinha em minha primeira casa. Felizmente tenho alguns registros fotográficos com ela.

Conforme Ana descrevia a escalada não pude evitar a emoção - sobretudo quando chegada a despedida. Deveríamos olhar para nossa pessoa imaginária e vê-la diminuindo até caber na palma de nossas mãos. Depois essa imagem se transformaria em nós mesmos - nossa versão da infância. Nesse momento as lágrimas escorreram: eu estava tomado por nostalgia.

Seguimos nosso trajeto adentrando um castelo localizado mais à frente do topo da montanha. Ali passaríamos por diversas portas até encontrarmos uma arca. Dentro dela havia uma concha; dentro da concha havia uma ostra; dentro da ostra havia uma pérola: uma pérola vermelha que emanava uma luz da mesma cor. Minha conexão com a condução de Ana era tamanha que mesmo de olhos fechados eu senti essa luz vermelha vibrando em meu rosto, ecoando em minha imaginação. 

Deveríamos colocar essa pérola em nossos narizes. Ela representava o palhaço, sua máscara: a menor do mundo. Segundo a doutora essa é a máscara que mais revela, desnudando o artista de uma série de amarras, possibilitando a liberdade de ser bobo, desajustado, palhaço… de despertar. E assim abrimos os olhos e deveríamos sentir-nos observando tudo e sendo observado de volta. 

Quando abri os olhos, com o corpo ainda desalinhado pelo curto momento na caverna, senti uma energia diferente. Senti que eu estava distinto do habitual. Senti-me um idiota e havia um prazer muito grande em não saber absolutamente nada. Não saber o que fazer, como me mover, como falar…. Sentia-me totalmente alinhado, mesmo com o corpo “configurado” de forma extracotidiana.



A próxima etapa da aula consistia em realizar alguma atividade do cotidiano e mostrar para os colegas. Mexer o caldeirão, tirar algo do pote, passar rímel, pentear os cabelos, cheirar o próprio hálito e sacudir lençol: essas foram as ações que desenvolvemos individualmente. 

Logo depois Ana sugeriu fazermos uma audição, criando uma coreografia com esses movimentos. Lúcia e Ana seriam nossas avaliadoras. Poderíamos colocar uma música de nossa preferência ou utilizar a sugestão tocada pela doutora. Cada um, de modo muito particular, realizou sua dança e apresentou de que país vinha e qual o nome da coreografia. A aula seguiu com todo o suspense das profissionais de avaliação sobre quem havia sido selecionado. 

Devido à conexão instável, Matheus, que iria apresentar-se como Magrilindo, seu clown, teve que optar por transmitir um vídeo já publicado no perfil @palhacosvisitadores . Sua performance abordava uma dieta pra lá de subjetiva. Magrilindo debocha de suas próprias “características magrescas” e instrui aos visualizadores a como - não - fazer uma dieta. 

Seguimos para a etapa final da aula onde Wuo, Mateus e Lúcia fizeram alguns apontamentos importantes sobre o palhaço hospitalar, como sua performance impacta positivamente na vida dos enfermos, as normas hospitalares, sobretudo a questão da biosegurança e das possibilidades de profissionalização do clown nesse ambiente.


Finalizamos o encontro definindo uma palavra para o que o encontro havia significado: 


Hudson: Luz

Ana: Sombra

Mandy: Desprendimento

Antônio: Aleatório

Gabriel: Dominó

Mateus: Ternura

Ximia: Leveza 

Lis: Conforto


Que essas palavras sejam corporeificadas em nossa prática do presente, do passado e do futuro: o fazer clownesco! 


Práticas Patéticas

    

    O segundo encontro da Disciplina Tópicos Especiais em Práticas Patéticas - digo, Poéticas - e Artísticas ocorreu novamente pelo aplicativo Google Meet. A ministrante e doutora, Ana Elvira Wuo, transbordava serenidade e calmaria e falou sobre triangulação: uma técnica utilizada por atores para comunicar-se com seu público. Trata-se de olhar e (ver)dadeiramente enxergar. 

    “Você olha para tudo e tudo olha para você”, explicou-nos Ana. O palhaço vê e enxerga tudo e absolutamente tudo devolve seu olhar para ele. A forma geométrica do triângulo é capaz de explicar as ligações que um ator faz quando olha e interage com quem - ou o quê - está em cena com ele, bem como com o espectador, peça fundamental em seu exercício cênico. 

    Começamos um aquecimento de algum modo meditativo. Deveríamos plantar os pés no chão, sentados em nossas cadeiras, fechar os olhos e soltar um pouco as articulações: coluna, ombros, pescoço. joelhos. Wuo adaptou a prática para a modalidade remota da disciplina. Em condições diferentes esse aquecimento é realizado com os cursantes deitados no chão.

    Após alguns minutos, Ana nos conduziu à uma viagem por meio da imaginação. Estávamos em uma trilha rumando em direção à uma montanha. Deveríamos pintar com a imaginação o espaço onde estávamos, bem como a nós mesmos: nossa pele, nossos órgãos. No caminho cruzaríamos com um riacho de águas cristalinas e purificadoras. A água deveria nos perpassar e olharíamos para nossas mãos e pés. Nossos membros estavam diferentes: eram de criança. Aqueles “nós” da viagem era nossa versão da infância. A criança que molha os pés, escorrega e cai.

    Mentira! Foi apenas a conexão da Ana que caiu devido à uma tempestade e com a mesma calmaria que havia chegado ela regressou passados alguns minutos. Sua paciência tornou o incidente técnico irrelevante e pudemos retomar a atividade. Os próximos passos envolviam memórias de nossa infância: as brincadeiras que gostávamos. 

    Recordei-me de brincar sozinho em meu quarto de “Fazendinha”. Montava minha própria fazenda com peças que formavam a cerca, a casa e depois organizava as pessoas e os animais. Quando nos foi solicitado colocar essa memória em ação, não consegui concretizá-la em movimento, então olhei à minha esquerda e vi minha geladeira. Essa imagem me transportou para as brincadeiras de pique na rua: pique-esconde para ser mais específico. 

Levantei-me da cadeira onde estava e me escondi atrás da geladeira. A fresta entre ela e a prateleira me dava a visão necessária para vigiar meu “inimigo”. Os resquícios de adrenalina e sede de vitória tomaram conta de mim. A empolgação por “bater meu nome” e salvar a todos representava o auge da brincadeira. 

    Depois, tive a oportunidade de ouvir o relato de outros colegas da disciplina e perceber quão ricas eram suas lembranças. Matheus brincava de Samurai usando uma vassoura como espada, Mandy corria ao redor de seis cadeiras e as contava ilimitadamente imaginando haver novas cadeiras, Gabriel soprava uma bolinha que rolava em cima do trilho feito com linhas, Lis fazia uma dancinha engraçada e Lúcia brincava de gangorra e deixava os coleguinhas de castigo no topo dela. 

   Posteriormente, assistimos à performance de Ximia Boia, palhaça de Lúcia, na qual ela surgia caracterizada e se relacionava com alguns objetos cênicos: uma maleta, sua boia e uma boneca parecida com ela. Lúcia colocou o estado do ridículo em prática e pudemos perceber em sua performance o uso da técnica de triangulação. A maneira como ela se relacionava com os objetos e a câmera me remeteu ao presente onde a arte tem sido apresentada sobretudo por meio dos recursos digitais..

    Finalizamos a aula com um exercício de olhar com a ponta do nariz, dilatando todo o corpo. A coluna, empregada na ação de direcionar o olhar conferia outro aspecto ao ato, um aspecto extracotidiano. “Ver com curiosidade”, sugeriu Ana. Olhamos para a direita, para a esquerda, para cima, para baixo, para nossas mãos, para nossos pés e até mesmo para nossas axilas. Olhamos a nós, aos outros, ao mundo. O mundo sob nossa ótica particular e subjetiva. Nossa doce - será? - ótica.



BEM VINDES!

Segunda feira, 26 de outubro foi um dia de boas vindas aos cursantes da disciplina “TÓPICOS ESPECIAIS EM PRÁTICAS POÉTICAS E ARTÍSTICAS”, ministrada pela Doutora em Artes Cênicas Ana Wuo. Talvez “PRÁTICAS PATÉTICAS E ARTÍSTICAS” fizesse mais jus ao nome da disciplina, já que ela propõe uma vivência palhacesca aos inscritos. 

Além de alguns alunos do curso de graduação em Teatro da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), estávamos presentes a doutora em Educação Lúcia de Fátima Royes Nunes e eu, Hudson Salustiano Silva, mestrando do Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da UFU, orientado por Ana Wuo. 

O link nos foi passado pelo grupo do whatsapp criado por Ana, que nos recebeu um a um conforme entrávamos. Ana demonstrava calmaria, serenidade, paz. Ela nos mostrou seu instrumento especial. Trata-se de um pente. Com ele ela consegue emitir uma sonoridade bastante interessante, lembrando instrumentos de sopro. 

Passados dez minutos, todos já estavam online, então Ana iniciou a programação. Falou sobre os objetivos da disciplina, como funcionariam as atividades (síncronas e assíncronas), da carga horária, de como os encontros seriam desenvolvidos. Depois falou brevemente sobre sua trajetória como atriz, como conheceu e se interessou pelo clown, que caminhos trilhou e como ela enxerga a formação de palhaços. 

Depois, nós participantes fomos ouvidos. Fizemos perguntas, apontamentos, comentários e recebemos de volta respostas e novas indagações. Em um dos apontamentos tomei conhecimento da existência do palhaço de Folia de Reis e logo fui pesquisar para ver sua imagem. Refletimos, também, sobre a dupla Branco e Augusto e como o jogo entre eles funciona. 

Nariz

Na risca

Rabisca

Arrisca

Arisca A isca

Ai!

Vermelho

Vê melhor

Sibemol

Mola

Olá!

Polar Palhaço


Ao fim do encontro realizamos uma prática que envolvia o corpo e a imaginação. Deveríamos pintar nosso nome com um pincel imaginário apoiado em nosso nariz, depois demos vez ao nosso sobrenome escrito com o mesmo objeto, dessa vez no topo de nossas cabeças. Posteriormente, entraram no jogo as orelhas e os ombros - que escreveriam nossa data de nascimento e o cep de nossas casas. 

Quando fizemos tudo junto já estávamos dançando sem ver e Ana perguntou que música cada um tinha em mente ao dançar. Ana cantou sua música e passou a outro participante. Depois foi minha vez que cantarolei um antigo sucesso do grupo Fat Family. O próximo participante dançou e cantou “La Bamba”, de Rick Martin. Imediatamente me perguntei como não pensei antes nesse clássico que tanto gosto. A brincadeira seguiu com o compartilhamento de outros participantes.

Antes da despedida, um dos alunos mostrou que também tinha um instrumento não convencional, feito com garrafa pet. A sonoridade era bastante divertida. Em seguida Ana mostrou outro instrumento: uma flauta diferente. Ela tinha uma espécie de “língua” que quando era abaixada mudava a altura da nota, variando do grave ao agudo. A sonoridade me remeteu imediatamente aos efeitos sonoros utilizados em desenhos animados.

Enquanto a Ana recebia os alunos no Meet, fiz um desenho e um jogo de palavras (estampados no desenvolvimento do texto. Este foi o dia em em que as engrenagens começaram a se mover: foi dada a largada para uma filosofia, uma expressão, uma linguagem. Deixo aqui publicado também, meu anseio por novos encontros, novas aventuras. Que nos permitamos aprender com essa figura cômica. Que possamos ser mais felizes. Bobos e alegres!


Livro: O Clown Visitador

O Centro Infantil Boldrini foi o picadeiro do grande espetáculo da Ana Wuo, conhecida como Dolores Dolarria, Ao adentrar no hospital, seu semblante espalhafatoso de palhaço a todos contagiava. Num passe de mágica, os sorrisos iam se abrindo, as lágrimas se escondiam lentamente, dando lugar a um brilho sem limites nos pequenos olhos das crianças e adolescentes que lá estavam para a longa luta contra o câncer. O conviver com a dor, doenças e algumas vezes com a morte de crianças, evoca profundos sentimentos de reflexão sobre a vida. Silvia Brandalise - Diretora do Centro Infantil Boldrini;

Este livro destina-se a professores, pesquisadores e estudantes das áreas de teoria teatral, pedagogia do teatro, performance, profissionais da saúde e lazer. Trata-se de uma pesquisa empírica abordando a arte do clown junto a crianças hospitalizadas, visando buscar a veia cômica desses pacientes por meio de sua iniciação no campo do risível, como forma de favorecer a otimização das terapias aplicadas a eles, contemplando a análise acerca do estado da arte pertinente ao tema. Arão Nogueira Paranaguá de Santana - Universidade Federal do Maranhão;

Os livros publicados no Brasil sobre o tema da arte do clown em ambiente hospitalar são geralmente focados na experiência pioneira dos “doutores da alegria” e são referências em diversos cursos de formação em teatro, psicologia e enfermagem. O texto de Ana Wuo apresenta outra abordagem da relação entre palhaçaria e o ambiente hospitalar em toda sua complexidade. Ao acionar a figura do “clown visitador” e não do “doutor palhaço”, a autora investiga outro modo de operar nesse espaço e novas formas de integração com ele. Este livro possibilita aos alunos e pesquisadores das áreas artísticas e de saúde o contato com uma pesquisa de fôlego, desenvolvida dentro do ambiente hospitalar, unindo arte, lazer e saúde no tratamento de crianças hospitalizadas. Narciso Telles - Universidade Federal de Uberlândia.

Compras e informações: Universidade Federal de Uberlândia: vendas@edufu.ufu.br


 

Rito preambular

A iniciação de clown se reduz, em suma, à experiência de morte e renascimento. Desformar um corpo para dar vida a outro, o corpo clownesco. Uma experiência paradoxal, sobrenatural, de morte e ressurreição, o segundo nascimento. Esse prelúdio equivale ao amadurecimento espiritual e, em toda a história religiosa da humanidade, reencontramos sempre este tema: o iniciado, aquele que conheceu os mistérios, é aquele que sabe. 
Na iniciação de clown, o mesmo acontece: durante aquele período em que o aprendiz está dentro do processo, pode tornar-se o outro quem não sabemos quem é, mas que o processo em si estimula essa crença de uma nova existência. Ele transforma os valores da existência. 
O processo iniciático equivale a uma mutação ontológica do regime existencial. No final das provas, o neófito goza uma outra existência após a iniciação: ele é de novo um outro. A iniciação introduz o neófito na comunidade humana e no mundo de valores espirituais. Nos estágios arcaicos da cultura, a iniciação desempenha um papel capital na formação religiosa do homem e, sobretudo, consiste numa mudança de regime ontológico do neófito.
Texto: Ana Wuo
Imagem: Summer Clown Course - Ecole Philippe Gaulier

Transgredir com arte

Descobrir e compreender o clown como um artista que existe em cada pessoa e emprestar-lhe a vida é um ato de persistência, desprendimento e muita coragem, pois o clown mostra que além de outras condições humanas, existe uma que evitamos revelar, a do fracasso.  As pessoas adoram rir do fracasso do outro, assim Bergson (1983) já dizia.
Construir o aprendizado da capacidade cômica exige o rompimento de um conhecimento cristalizado, solidificado na inteligência, na esperteza, no sucesso, mostrando um outro ponto de vista social, estético e cultural ao avesso, transgredindo, com arte, valores preestabelecidos pela sociedade (Ostetto; Leite, 2004, p.11), a área artística “tem a transgressão como mola propulsora de sua construção”.
Transgredir é burlar o conhecimento como forma de encontrar a si mesmo como um ser risível, como possibilidade, na arte clownesca, da renovação cômica do conhecimento, sem limites atravessando o outro lado do espelho, a outra margem do rio, virando o outro lado da moeda, encontrando o coração corajoso e forte daqueles que dedicam as suas vidas a criar personagens cômicos que desde os primórdios tem como objetivo inverter a ordem pré-estabelecida construindo uma “capacidade de parodiar” e de rir das situações humanas. Larrosa (2001, p.178) nos diz:

“Os personagens cômicos são seres que não estão implicados, que não entendem, que não participam, que estão sempre por fora, a uma certa distância do que acontece. Mas são capazes, sobretudo o pícaro, de tudo parodiar, de ocupar qualquer palavra direta, de reproduzir parodicamente, quando faz falta qualquer tipo de patetismo... O idiota simplório, esse bobo de que todos se riem e que não é tão tolo quanto parece, isola e distancia a convencionalidade da linguagem elevada, simplesmente não a entendendo, ou entendendo ao contrário, mas provocando sempre distância entre a linguagem e a situação comunicativa... desnaturaliza as linguagens elevadas ao invertê-las.”

Assim, o riso provocado na platéia pelo clown, mostra a realidade a partir de outro ponto de vista. Esta seria a função do desmascaramento do convencionalismo: desenha-o com apenas um traço e o coloca a distância. O riso questiona os hábitos e os lugares comuns da linguagem. Em qualquer época, em qualquer lugar, Larrosa (2001) explica que o riso transporta a suspeita de que toda linguagem direta é falsa, de que toda vestimenta, inclusive toda a pele, é máscara e, somente com o riso é que podemos, como disse Bakhtin (1987, p. 57): “ ter acesso a certos aspectos extremamente importantes do mundo.”

Texto completo, por Ana Wuo: ftp://ftp.usjt.br/pub/revint/57_56.pdf
Imagem: Clown Gergelim (arquivo Cirurgiões da Alegria - 2011)